quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Cachimbo Noir

Dias Gigantescos (1928), de René Magritte


O pintor belga surrealista René Magritte foi, em parte, grande inspirador para a confecção de minha nova peça que ganhou o nome de sua obra onde vemos um cachimbo pintado e o concreto lembrete de que o que se vê não é o que parece ser. Surgiu assim "Ceci n'est pas une pipe ou Este não é um cachimbo" onde o personagem Homem decide mudar seu sexo e deixar de ser o Homem para passar a ser a Mulher. É uma peça sobre a escolha de uma nova vida. É uma peça inscrita/escrita com bases fortes nas pinturas de Magritte, sobretudo nas obras Dias Gigantescos (1928), A traição das imagens (1929) e Golconda (1953).
Aos poucos, através do mergulho, plano eu confesso, pelo surrealismo, criei uma peça que dialoga com as Artes Visuais e procura por essa contemporaneidade fracionada que vivemos.
A peça foi iniciada no curso de dramaturgia com Roberto Alvim, no espaço Club Noir em São Paulom que no último dia 8 de setembro ganhou vida pelo Ciclo de Leituras coordenado pela atriz Juliana Galdino (ex-CPT e recentemente Macaco em "Comunicação a uma Academia").

Foto de Leituras 2010/Club Noir - 08/09/10

Sobre a Leitura: observar/ouvir/sentir o texto sendo lido/encenado expandiu meu campo de percepção à respeito de alguns personagens e me permitiu, acima de tudo, me ouvir ali, me ver ali, ser cúmplice de quem teve palavra, mesmo sendo dono delas e ao mesmo tempo não sendo mais. Está escrito. Está para o mundo.
Ainda sobre a Leitura: Boa. Alguns atores decepcionaram minha escuta. Um deles me fez chorar. De raiva. Poucos, confesso. Porém, outros me apresentaram uma abordagem nova desta passagem, que passou a ser melancóóólica até, bonita, nova. Vi um texto que talvez não queira que seja a versão final, quero outro, com pouca diferença, mas de fato, não este cachimbo. Outro.

A traição das imagens (1929), de René Magritte


Trecho da peça "Ceci n'est pas une pipe ou Este não é um cachimbo" de Rafael Carvalho:


Mulher Sozinha - O Homem acabou de deixar a sala de consulta. Ele está de costas para a platéia, em frente à porta branca. A consulta acabou de passar e não podia deixar que sua decisão se estendesse por muito tempo mais. Ele olha para o lado e vê um banco. Sentado permanece ali pensando. Olha para os três homens sentados um ao lado do outro. Olha para o casal. Ele olha para mim. Sinto seu silêncio. O Homem decidiu mudar seu sexo. Ele disse sim e agora vai deixar de ser O Homem e passará a ser A Mulher. Fisicamente, ele será A Mulher. Maquiagicamente ele será A Mulher. Remanufaturado. Mas ali sentado, sua percepção expande e começa a ver outros Homens, outras Mulheres, outras Crianças, outros Outros, outras Formas de vida das quais pode se multiplicar. Agora ele é apenas O Homem, mas não será somente um. Não mais. Com a decisão tomada, muitas vidas exigirão seu espaço de existência dentro deste corpo. Começa assim...

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